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Sublime Altura

Um pequeno ensaio sobre as panorâmicas de Cássio Vasconcellos

“Certa vez, quando ainda acreditava ser possível ensinar arte a seus alunos, Matisse lhes disse que uma das lições mais ricas consistia em realizar uma viagem de avião, pois assim poderiam ver o mundo com outros olhos, fomentando uma sensibilidade nova com base em outra perspectiva. Cássio Vasconcellos é um fotógrafo que não só soube tirar proveito de tal lição, como fez dessa aula uma forma de vida. Seu trabalho atual se nutre cada vez mais das fotos aéreas realizadas pelo artista em suas excursões de helicóptero mundo afora.

A série de panorâmicas que Cássio inicia em 1993, ao reeditar fotos mais antigas de seu acervo, constitui etapa importante em sua formação poética. A palavra panorama, termo de origem grega que remete a uma visão do todo, foi cunhada pelo pintor inglês Robert Barker em 1792, durante a exposição de pinturas sobre Edimburgo que realizou em Londres. Em 1793, Barker fez fortuna ao abrir seu panorama para o grande público na mesma cidade. Em 1787, ele já patenteara sua invenção, que “permitia ver a natureza como se o observador estivesse de fato no local”. Realmente, para realizar tal efeito, é preciso amplo domínio das técnicas de projeção em perspectiva.

O panorama deve ser compreendido no âmbito das grandes transformações técnicas ocorridas na Europa entre os séculos 16 e 19, quando foram desenvolvidos dispositivos ópticos (câmera escura, lentes, estereoscópio, microscópio, câmera fotográfica e cinema) que ampliaram drasticamente os horizontes visuais humanos, da escala microscópica à macroscópica. Desde então, questiona-se o paradigma de que a percepção humana se baseia numa perspectiva única, pautada num olhar ciclópico. O olhar passa a ser entendido como mecanismo móvel com vários pontos focais.

Em momentos significativos de sua carreira, Cássio montou instalações de grande escala, com várias fotos que produziam uma imagem única quando o observador se posicionava em determinado ponto de vista. Ao contrário dos panoramas de Barker (que chegavam a ter 250 metros quadrados), as panorâmicas de Cássio são de pequeno formato; a escala dessas fotos revela grande qualidade compositiva, pois os elementos são dispostos de maneira a invocar sempre um espaço mais amplo. As figuras, quando aparecem, estão sempre dissolvidas numa paisagem grandiosa. Mediante a sobreposição de camadas finas de fita adesiva com negativos fotográficos, o aspecto topográfico e tátil se contrapõe à visão do longínquo – jogo crucial ao efeito panorâmico, que aproxima e ao mesmo tempo distancia o observador da imagem.

A fotografia de montanhas recortadas com incisões, as quais indicam uma forma rudimentar de escrita, explicita bem a busca pela dimensão tátil da imagem. O fato de elas serem em preto e branco é igualmente significativo, pois parecem congeladas numa espécie de tempo imemorial fotográfico, para não dizer onírico ou propriamente metafísico. Na época em que se fizeram as panorâmicas, ainda não havia o universo digital; logo, foram produzidas manualmente no laboratório. A colagem de vários negativos antecipa de certo modo o método digital de recorrer ao layer e ao cut and paste. Creio que aquele procedimento inicial veio permitir que Cássio utilize agora os recursos digitais com grande liberdade artística, fazendo desse artifício um meio para realizar novas e surpreendentes imagens aéreas.

As panorâmicas de Cássio se mostram atuais ao retratar um mundo em movimento. Quando olhamos para elas, temos a sensação de estar em trânsito – seja de avião, seja de barco, seja numa roda-gigante, seja até mesmo a pé. AS imagens nos levam a lugares distintos: ora somos argonautas numa jangada no Ceará, ora beduínos em Genipabu, ora motoristas atravessando um túnel em São Paulo, ora pedestres percorrendo casualmente a praia de Ipanema. Creio que as panorâmicas permanecem no substrato das imagens mais atuais do fotógrafo. Ao criar hoje suas paisagens aéreas, o artista reúne fragmentos de pessoas, ou carros, que são minuciosamente manipulados pela técnica digital, como num grande quebra-cabeça. O ponto de vista parece ser impulsionado a uma tal escala que só quando nos aproximamos conseguimos desvendar o segredo dessa grande tapeçaria. E, no entanto, estamos tão longe que parece ser impossível chegar a tempo de reconhecer alguém na paisagem.”

Marco Giannotti
Kyoto, 2012