A panorâmica é uma das formas mais acabadas da visão panóptica. Ver tudo. Hoje,
porém, a visão que se pretende abrangente só evidencia a problemática de apreender as grandes dimensões das paisagens metropolitanas. O olhar só registra cenas de alcance limitado, circunscritas pelos obstáculos, direcionadas pela experiência imediata. A complexidade e a fragmentação do mundo globalizado não são mais acessÃveis à  percepção individual.Cássio trabalha com o dispositivo da panorâmica.
Uma imagem da Zona Leste de São Paulo é recortada em 67 partes, dispostas em planos distintos. Penduradas, parecem uma exposição de fotografias que poderiam ser vistas isoladamente. A questão reside nesta operação de desconstrução. As imagens, para que a composição final seja obtida, têm tamanhos distintos e são ampliadas em diferentes escalas. Mais: detalhes da paisagem urbana, situados ao fundo da imagem, são colocados em primeiro plano, enquanto elementos próximos na cena são dispostos ao fundo. Um rigoroso cálculo matemático foi necessário para determinar as proporções de cada ampliação. A cena não se dá de imediato ao observador. A percepção do todo – na verdade sempre fugidia devido à s várias interferências – exige um exercÃcio de ajuste, requer tempo.
Hoje a observação de registro imagético da cidade implica trabalho. A imagem não se oferece mais à contemplação, mas constitui material para representações abstratas.Num momento em que as imagens de satélite, capazes de zooms cada vez mais acurados de parcelas do território urbano, nos prometem uma apreensão de sua configuração e dinâmica, Cássio decompõe a estrutura da perspectiva panorâmica, a forma básica da imagem fotográfica da paisagem urbana, para enfatizar que essa percepção é resultado de dispositivos de análise e reflexão.
Nelson Brissac
